sábado, 27 de novembro de 2010


29 de agosto, agora.
Dizia Dona Aurora a si mesma, enquanto marcava um XIS em seu pequeno calendário ao lado da cama.
As horas passaram muito rápido naquele dia, enquanto ela ajeitava o quintal que tanto gostava. Regava as flores uma a uma, embaixo do sol escaldante.
Na mão esquerda, a aliança já desgastada de Dona Aurora refletida pela luz intensa do sol sobre ela. Enquanto isso, seu Félix, a observava de lá da varanda, com um médio sorriso nos olhos.
O dia começou a refrescar, e Dona Aurora ao conversar com suas plantas se esquecera como o tempo passava rápido enquanto ainda tinha sua companhia, suas flores e seu quintal.
Motivação de alguns anos para Dona Aurora, já que não tinha filhos. Um pequeno problema de seu Félix com mundo. Coisa da qual ele nunca se perdoou. Como se pudesse moldar o destino.
Já passavam das 17h30min e o dia começou a escurecer. Levantou-se, foi até a cozinha preparar seu chá da tarde. Ela sentia seus ossos um pouco mais fracos, naquele dia. Sabe lá por que. Pegou o pacote de bolachas do ultimo natal que ainda restara, sentou-se à mesa, naquele lugarzinho à esquerda que sempre adorava, pois ficava de lado ao seu Félix.
Mastigou a primeira bolacha, engolindo com o chá.
Seu Félix ficava absurdamente atento a todas as manobras de sua pequena esposa, agora tão velha. Sentou-se e continuou a admirá-la. Perguntava-se como podia ele, ter uma mulher tão prazerosa e forte ao seu lado.
Dona Aurora por outro lado, se sentia só. Era como se algo lhe faltasse desde pequena. Algo que ela pensava que seria a família que não conseguira. Mas não era.
Ironia do destino, ou discrepância do mesmo.
Era apenas uma senhora infeliz com suas contas pagas. Sua casa própria. E seu programa de TV favorito, onde naquele dia se apresentava seu cantor predileto.
Ela era uma amante da música. Mas havia abandonado seu piano por já não ter mais condições de tocá-lo. O coração já não se sentia feliz ao tocar cada nota, que outrora, era a maior felicidade de sua existência. Ora, tocar Tom Jobim é para poucos, pensava.
Seu Félix sentado em seu cômodo favorito, observava-a incrédulo. Pensava como alguém podia ser tão birrenta. Por que não só sentava a bunda macia naquele banquinho do piano, já com bastante poeira, e tirava as horas perdidas de um mundo vão a qual sua querida se perdeu.
Ele não entendia. Mas sabia o que havia.
Dona Aurora se acostumou com aquela vida meio sem sal.
As noites chegavam, colocava seu pijama rosinha claro, preferido de seu querido. Sentava-se de fronte a penteadeira, olhava-se no espelho e a imagem não lhe fazia feliz. Passava os dedos por suas rugas fundas. De repente rolava uma gota d’água. Como o mundo podia ser tão vazio?
Deitava-se no canto esquerdo da cama, onde era seu lado. Enroscava-se no lençol e se perdia em pensamentos. O frio era demais, mesmo que o termômetro marcasse 22°. 
Pegava o cobertor do armário, se enrolava sobre ele, o frio corporal passava. Mas o vazio de dentro, era cada vez mais gélido. Demorava, mas sempre pegava no sono antes das 22hrs.
Seu Félix deitava ao seu lado, com a barriga pra cima, e olhava-a a cada minuto se certificando de que sua querida estava bem. E no fundo sabia que perdia horas a olhar ela por motivos óbvios: ela era sua vida, e nada era tão mais lindo que sua querida dormindo.
E assim os dias se seguiram lentamente, um por um. A mesma rotina diária. A não ser pelas sextas- feiras: dia de feira.
Dona Aurora que adorava pegar sua cesta, mas odiava deixar sua casa.
Era uma tortura trancar o portão e se ver do lado de fora.
Atravessava a rua muito bem cuidadosa, olhava para os dois lados. Seu Félix, sempre ao lado.
Passava a manhã inteira escolhendo os legumes um a um. E as frutas então? Nem se fala.
Ela, que adorava amora, sempre perdia mais de 15minutos olhando, verificando, se certificando que seria uma boa fruta a se comer, quando chegasse a casa.
Pegava duas tangerinas, preferida de seu Félix.
Numa dessas sextas-feiras ela se deu conta que o dia já era 18 de setembro.
Acomodou-se cedo naquela noite, pois cedo, do dia que viria, teria de acordar.
Antes de deitar, tirou Félix para uma dança. Uma dança sem música era só ela e ele. Os passos: dois pra lá, dois pra cá. Sorria, sem muito entender o que estava fazendo. Seu Félix com o sorriso nos lábios.
Então guardara o terno de seu Félix no armário, no cabide de sempre, no lugar de sempre.
Colocara o pijama de sempre, e dormiu, naquela noite, como um neném.
Ao acordar as 7hrs e 30min da manhã de 19 de setembro, assustou-se com a chuva fina.
Colocou seu vestido florido, sua sandália preta. Ah, seu Félix se divertia ao vê-la se trocando. Principalmente naquela manhã.
Ela então pegou seu guarda chuva, e saiu em direção ao seu destino.
Seu Félix não a seguia naquela manhã.
Ao chegar a seu lugar esperado, olha ao relógio e atira a bolsa no chão, reclamando: “Seu velho idiota. Como foi me deixar nesse mundo, sozinha?”
Abaixou-se ao tumulo de seu Félix e uma lágrima escorreu.
Fechou os olhos e por um instante lembrou-se dele. Lembrou-se de seu querido deitado numa cama de hospital e sorrindo. Coisa que ele sabia fazer melhor do que esperava.
Ela se lembrava de cada toque dele, não só daquele dia. Mas da vida toda.
Lembrou-se da ultima conversa:
“Você me prometeu que ficaria do meu lado pra sempre.” Disse ela.
“Eu ficarei, minha querida. Eu sempre estarei ao seu lado.”
 “Não me venha com isso. Estou com raiva de você. Estou com raiva da vida. E não acredito em vida após a morte. Eu depositei a minha vida em você, e agora nem isso mais eu terei.”
 “Calma, minha querida. Isso não é o fim. Você ainda vai viver mais do que eu. Pode mudar isso.” Tentou reconfortá-la.
“Mas eu não quero. Eu quero ir com você, porque nada tenho nessa vida além de você.”
 “Eu lhe prometo que sempre estarei ao seu lado. Em cada minuto da sua vida, estarei lhe observando. Dance comigo. Fale comigo. Deixe o meu lado da cama vazia, pois sempre estarei lá.”
 “Você me promete?”
 “É claro. Até porque nada, nem o infinito e o paraíso podem ser completos se eu não tiver você, minha querida.”
 “Seu velho bobo.” Sorriu ela, enquanto chorava.
Os olhos dele concentraram-se nos dela. Um medo trocado no olhar.
Ao lembrar-se disso, diante da chuva que escorria lentamente por seus cabelos já grisalhos, fechou os olhos e falou em voz alta:
 “Eu te amo todos os dias da minha vida. E amarei cada vez mais.”
Ele, posicionado ao seu lado, em pé, falou, mesmo sabendo que ela não podia ouvir, mas talvez sentir: “eu também, minha querida. Eu também.”
Ela deixou um buquê de rosas de seu quintal. Esse era o maior propósito de cuidar tanto das suas flores. Plantar com devoção, pra colher as mais belas flores e entregar ao seu amor.
Levantou-se, enxugou as lágrimas, desejou feliz aniversário, e virou-se em direção a sua casa.
Seu Félix tomou-se o lugar de sempre, lado direito de Dona Aurora.
Ela não acreditava que ele estaria ao lado dela pra sempre. Mas algo nela fez sentir sua presença naquele dia. Sentiu-se mais confortada, e um sorriso veio aos seus lábios.
Ela não podia pensar em outra vida. Ela o amou. E isso sempre foi o seu necessário.


Por alguém que tem o dom de ser tão distante e próxima ao mesmo tempo...
Isadora Castro.

2 comentários:

  1. Oláá! Estava passeando pelos blogs, e achei você! xD
    Gostei daqui! Estou seguindo... Depois da uma passada no meu, pra conhecer!

    Beijos :*

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